segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Paz interior



  Desta vez, não escrevo como uma forma de descarrego de sabe-se Deus o que; ou como forma de suplica, ou até mesmo reclamação. Não escrevo pra você, que tem a mania incansável de estar em meus pensamentos e em minha memória, ou até mesmo para o outro; como forma de idealização. Escrevo para mim, como se precisasse incansavelmente lembrar destas coisas para minha própria sobrevivência. Mas desta vez não! É diferente: posso sentir! Sentir ao pé da letra, feito aqueles beliscões que nossa mãe travava na gente quando desmentíamo-na com a vizinha; tamanha satisfação que hoje me invade. Arnaldo Jabour já me dizia: “Se durou cinco anos ou cinco meses, tanto faz, é porque foi bom; enquanto durou”; e posso lhe garantir, Jabour: ainda dura! Relacionamentos findados não precisam ser sinônimo de passado; ainda que não volte o relacionamento, volta aquele sentimento antigo de pureza no olhar, lábios paralisados e respirar sobressaltado que o outro deixava em nós. Volta o 'estar bem' e a vontade de rever aquela alma limpa deixada no passado. Pudera eu eternizar tudo isso: pregar nas paredes do quarto milhares e milhares de fotografias ainda que tenham sido somente uma ou duas registradas; deixar minha caixa de entrada do hotmail mofar com aquelas expressivas delicadezas que costumava me mandar; tornar intocáveis todas as palavras que por você foram registradas numa simples folha de papel e direcionadas a mim. E o melhor de tudo isso? Ah, isso eu não poderei nunca explicar com meras palavras; porque vem de dentro! E essa paz interior que agora sinto, não poderia nunca deixar de ter registrado, e repito: não como forma de descarrego ou confirmação; apenas sentimentalismo. Ainda que banalizado, sentimentalismo.

Marcella de Souza Freitas